Vítor Pereira confirmou a promessa e foi a Fátima agradecer o título. Aqui aparece juntamente com a sua mulher, em traje de peregrino, tentanto tapar a cara. Digo eu que não faz mal nenhum um homem manifestar a sua fé
(Foto de Paulo Novais, da agência Lusa)
Na época de 1984/85, o Porto sagrou-se Campeão Nacional ao fim de 6 anos de jejum. Para trás, ficava um período conturbado em que Américo de Sá deixara a liderança do clube e Jorge Nuno Pinto da Costa, ao lado de José Maria Pedroto, iniciara um ciclo que iria ter os resultados que se conhecem.
Artur Jorge foi o treinador escolhido nessa época. As desconfianças eram inúmeras, pois no seu curriculum nada mais constava a não ser uma descida de divisão com o Beleneses. A juntar ao curriculum de Artur Jorge, os adeptos sentiram-se magoados pela forma como foi afastado António Morais, que na época anterior conduzira a equipa à final da Taça das Taças.
O início da época não foi auspicioso, sobretudo por causa da eliminação precoce às mãos do Wrexham, da IV Divisão Inglesa. Para esta eliminação - uma vitória por 4-3 numa noite pluviosa nas Antas após um 0-1 no País de Gales - muito contribuiu a ausência do guarda-redes Zé Beto, que jogava no Campeonato mas era substituído, na UEFA, pelo sérvio Borota.
O resto da época acabou por ser um passeio. O Porto venceu facilmente o Campeonato, com 8 pontos de avanç sobre o Sporting e 14 sobre o Benfica (numa altura em que a vitória valia 2 pontos) e Fernando Gomes sagrou-se pela segunda vez Bota de Ouro, com 39 golos marcados.
A consagração ocorreu na 27.ª jornada, em casa contra o Belenenses. Vencemos por 5-1 e sagrámo-nos virtualmente Campeões. Gomes (3 golos), Jaime Magalhães e Futre foram os marcadores. Os últimos minutos jogaram-se com milhares de pessoas em volta das 4 linhas. Aliás, a invasão de campo antes do jogo acabar levou a que o encontro fosse interrompido durante vários minutos. Com o último apito, que o árbitro ia preparando de forma a que os jogadores pudessem fugir para os balneários, terminava a festa, que se prolongaria depois na Avenida dos Aliados.
Muito acertada a convocatória de Nelson Oliveira. Não fosse ter passado uma temporada nas mãos de Jorge Jesus já podia ser o nosso melhor ponta de lança. E vai sê-lo. Primeiro acerto: um jogador jovem que deve rodar na selecção.
O segundo é mais oportunista: pode ser que o Europeu lhe corra bem, como espero, e vá mesmo jogar para outro campeonato na próxima temporada. Este não o quero a rematar contra a nossa baliza.
Admito que a muitos possam parecer demasiados festejos, estes que o FCP tem vindo a fazer, até porque o FCP conquistar o campeonato não é propriamente um feito singular (oito vezes na última década…), mas a culpa é nossa?
Nós estávamos sossegadamente em casa, no sofá, quando o Benfica perdeu o campeonato por não ter conseguido ganhar ao Rio Ave. Era natural que os adeptos saíssem à rua e festejassem o título: pois se ele tinha acabado de lhes ser oferecido pela inépcia benfiquista não se iria festejar?
Depois veio o Dragão. O primeiro jogo em nossa casa: era perfeitamente legítima a festa.
Agora foi o último jogo do campeonato, que assim chegava ao fim com a conquista de mais um título. Era chegada a hora certa dos festejos. Foram muitos? Talvez, mas a culpa foi só do Benfica: se não tivesse perdido na Luz com o FCP ou se tivesse conseguido vencer o Rio Ave provavelmente só teríamos festejado este fim-de-semana.

Manter Vítor Pereira para a próxima época é a solução natural e, apesar de tudo, a de menor risco. Não seria bom ter 3 treinadores diferentes em 3 épocas consecutivas. E bem vistas as coisas, arriscada foi a sua ascensão a técnico principal na época que agora termina. Um treinador sem curriculum, até aí mero adjunto de André Villas-Boas, sem ter dado provas e sem experiência de I Liga.
Fui crítico de Vítor Pereira ao longo da época, como cheguei a escrever aqui, mas a verdade é que o treinador fez o que dele se esperava: foi Campeão Nacional. Pode-se discutir a qualidade do futebol apresentado, o prematuro afastamento da Liga dos Campeões, a aliminação copiosa na Taça de Portugal, mas estaremos todos de acordo quanto ao facto de o principal objectivo da época ter sido conseguido.
Sejamos honestos: não seria fácil a qualquer adjunto, depois de uma época em que ganhámos tudo, pegar numa equipa que perdeu o seu maior referencial de ataque, Falcao, e mesmo assim conseguir ser Campeão. Será tolinho quem pensar que o próprio André Villas-Boas, se tivesse continuado, iria ter uma época de passeio à semelhança da anterior.
Vítor Pereira conseguiu-o e grande parte do mérito deste título deve-se a ele. Destaco um momento: a vitória na Luz. E relembro que, a 10 minutos do fim, com o resultado empatado a 2, o treinador tirou um médio e colocou em campo mais um avançado. Prova de ambição, prova de coragem, demonstração de que queria ganhar o jogo. Não haveria assim tantos treinadores a arriscar daquela forma naquele momento. Para mim, isso fez toda a diferença sobre quem era Vítor Pereira.
Ou muito me engano ou, em 2012/2013, é esse Vítor Pereira que vamos ver do princípio ao fim.
Onze tipo
Mika,
Fábio Coentrão, Bruno Alves, Rolando, João Pereira,
Nani, João Moutinho, Raúl Meireles, Ronaldo, Quaresma,
Hugo Almeida
Banco
Paulo Bento (com Mourinho ao telefone)
Rui Patrício, Quim
Ricardo Costa, Paulo Jorge, Nélson, Tonel
Vieirinha, Miguel Veloso, Custódio, Rúben Micael, Carlos Martins
Nélson Oliveira, Varela
Mika? Já vi tudo o que tinha a ver sobre o Mika. Zero golos sofridos até à final do mundial de sub-21 (com uma única asneira que faz parte dos ossos do ofício). Um guarda-redes que sabe agarrar a bola com as duas mãos como um jogador de basket. Envergadura de Petr Cech: 1,95 m. Só lhe falta experiência, pena foi que não tivesse jogado em encontros de preparação. Depois de Vítor Baía, vamos voltar a ter um grande guarda-redes.
Pepe de fora? Sou contra a batota nas seleções. Quando o Liechtenstein ganhar o campeonato do mundo com 11 brasileiros, 6 portugueses, 5 turcos e um cidadão do Liechtenstein, talvez se lembrem de mudar regras.
Com utilização frequente no meu onze tipo: Nélson por João Pereira, Vieirinha por Moutinho, Varela por Quaresma, e Nélson Oliveira por Hugo Almeida
Sou da geração do Porto Campeão. Desde que me conheço que vivo as festas do título. Lembro-me perfeitamente, por exemplo, da última jornada da época de 1978/79. Num estádio repleto, em pleno mês de um tórrido Junho, uma vitória por 4 - 1 sobre o Barreirense e a conquista do bicampeonato com Pedroto. A bem dizer, não vi um único minuto do jogo, tal era a enchente e tão pequeno eu era. Na altura, os estádios não tinham cadeiras e cabia sempre mais um.
Tenho recordações mais antigas, mas algo difusas no que diz respeito às datas e aos jogos. Há um Porto - Varzim algures no tempo, que a memória me diz que vencemos por 5 -1 e que eu vi o jogo na antiga Bancada Cativa (os registos históricos indicam esses 5 -1 como tendo sido em Abril de 1978, mas a verdade é que nunca na vida assisti a um jogo na Bancada Cativa - a memória é assim). Também me lembro vagamente de um empate 1-1 com o Setúbal, o meu pai muito aborrecido, mas é algo de tão vago que mais parece não se ter passado comigo. Fiquei espantado quando confirmei que foi esse o resultado do jogo realizado nas Antas em Março de 1975, tinha eu 3 anos.
Nos anos 80 e 90, por ser membro dos «Dragões Azuis», a antiga claque, vivi de muito perto todas as festas do título. Um período em que acompanhei o Porto de norte a sul e em que privei pessoalmente com algumas das figuras mais importantes do clube. Podia referir vários nomes, mas há um que me é suficiente: o de Rabah Madjer, o meu ídolo maior.
Na altura, a festa do título não tinha grande piada. Mal o jogo acabava, ou ainda antes, milhares de pessoas invadiam o relvado, os jogadores fugiam e a festa acabava ali. Continuava horas depois com os jogadores, mas já na Baixa. Lembro-me de uma das vitórias dos anos 90, talvez em 1992/93, em que os jogadores se juntaram aos Diapasão no concerto que decorria em frente à Câmara. Lembro-me como se fosse hoje do Vítor Baía e do Domingos a cantarem, ao lado de Marante, o mítico «Eu sei, eu sei, és a linda portuguesa com quem eu quero casar». Um período em que a varanda da Câmara Municipal ainda estava aberta para o FC do Porto.
A vida, o surgimento de outros interesses e a família afastaram-me um bocadinho deste ritual repetido ano após ano. Mas em 2004 não resisti e, no momento em que passava no Dragão no autocarro da antiga linha 11, a caminho da Escola, tive de sair para saudar os heróis de Gelsenkirchen, que chegavam naquele momento ao Estádio. Vinham num autocarro aberto que demorara horas a atravessar a VCI. Deco, com uma cerveja na mão, era o mais entusiasmado de todos, numa comunhão com os adeptos que foi sempre uma das suas imagens de marca.
No Sábado à noite, participei de novo, de forma inusitada, nos festejos do Porto Campeão. Vindo de uma festa, em plena VCI uma barreira de motas da Polícia manda parar o trânsito junto à zona de Paranhos. E dessa saída, surgiu de repente a camioneta aberta dos Bicampões Nacionais. Aproveitando a surpresa, fui atrás da camioneta até ao Estádio do Dragão. O cortejo tornou-se enorme em menos de meio minuto, bem como as buzinas constantes. Não deu para muito, mas o suficiente para mostrar às minhas filhas o que é ser Porto. Os gritos da pequenina de 20 meses, «Poto, Poto», sossegaram-me em relação ao futuro.
Mais azia para os que inventam desculpas de mau pagador para os seus fracassos desportivos e têm neste seu adepto um alvo de eleição.